segunda-feira, 28 de junho de 2010

Desde-já-bafo

Ao escrever, entre vãos e vens, descobri que as palavras que realmente me descobrem são as que aparecem quando o assunto fácil falta. Falar de aventuras desventurosas ou ilusões amorosas é tão profundo quanto uma acne. E surgem na mesma faixa e(o)tária.

No começo o assunto parece brotar no meio da sua testa-teclado. Claro que você nunca dirá tratar-se de cornos (mesmo que sejam). O espelho será seu guia nos próximos passos digitais. Você então prepara suas mãos hábeis e começa a observar-se. Prazer e dor logo se misturarão naquele espetáculo sebáceo, pouco estimulável. Aquilo deixará marcas, mas esta luta contra o próprio corpo parece ser o seu baluarte de auto-estima-destrutiva.

Já revigorado pelo resultado, a publicização daquilo deve ser imediata. O pus vira troféu numa inversão bukowskiana de papéis orgânico-sociais. A vergonha daquela excreção vira prazer quando vista e reconhecida por outros como deles também. Não importa a cicatriz que deixa, aquilo já foi revigorante para você e para o possível voyeur-leitor.

(...)


terça-feira, 1 de junho de 2010

Alter-ego-ísmo

Antes de tudo, ou de mais nada, quero que saiba que eu escrevo primeiramente para mim.

Escrevo para reler e gostar. Não me preocupo em ser meu primeiro e último leitor. Quero desvincular o texto das aspirações ou expectativas de outrem. A escrita pela própria necessidade de palavras. Deixo claro que não preciso ter leitores fiéis a quem agradar. Nem farei por onde.

Deixo livre o texto, para fluir quando e para onde quiser. Estou farto de escritas obrigadas, viciadas e pretensiosas. Este espaço é de des-leitura cotidiana. Matérias 'pagas' serão devidamente identificadas.

Mas isso não facilita as coisas. Na posição de meu-maior-crítico não saio escrevendo sobre qualquer dor de cotovelo. De cabeça, sim. Textos cefaléicos que contagiarão quem percebe-lê-los nas suas singularidades em conjunto.

Não espere palavras bonitas. Não espere palavras feias. Não espere.

O meu ego não precisa ser alter inflado.

Não vou divulgar.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Clawnstrofilia

- Você acha que eu tenho cara de palhaço?!

(Loui) - E qual o problema? É moda hoje em dia. Todo mundo se pinta, se veste e, claro, se publiciza. Fazem tolices durante seus 15 minutos de ridicularidade e ganham pontos com seus pares. Que não sabem se levam mais a sério a si mesmos ou as suas imbecilidades. Meros coadjuvantes que entretiam o público enquanto mudava-se o picadeiro para os verdadeiros artistas. Foram dar importância a essa gente, agora aguenta. Não é um nariz vermelho e uma roupa idiota que vão tornar sua vida medíocre mais aceitável.

- Mas não dizem que os melhores palhaços são tristes?

- Que tropeçem e caiam de cara com a realidade. Quem sabe assim não consigo rir com suas des-graças.
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Ascenda antes de Ler


(Loui) -Veja bem, o que eu queria mesmo fazer agora era acender um cigarro. Daqueles de apodrecer camisa, sabe? Essa noite...esse vento. Não ligo para a marca, ela não vai estampar meu pulmão. Queria o ardor gutural, a primeira tragada do primeiro cigarro do dia. Minha sobriedade combina com isso.

Ficaria ainda mais lúcido, ensimesmando-me. Sem a demência torpe do THC. Com nicotina e sem aquele ar de rebeldia estúpida adolescente. Sem clichês do cabeludo bêbado, fumante. Aquele que sua avó te manda ficar longe e o terror dos pais quando sogros. Sem transgressões de novela das 8.

Não quero fazer um tipo. Fazer pose e baforar tudo de podre que tenho nessa peristalse defumada. Fumaria para mim. Naquela praça a noite, com ninguém chegando. Perfeito. A sensação só minha. A chama cada vez mais perto, me chama. Puxe, segure, solte.

Chamo um dos meus melhores amigos da carteira. Um clique e o isqueiro acende. Sem drama.

- Mas você não faz mais isso...
- Por isso escrevo.