segunda-feira, 25 de agosto de 2008

China, Cultura e Massa

Mais de 40 milhões de americanos viram o nadador Michael Phelps ganhar seu oitavo ouro olímpico. A Olimpíada de Pequim está perto de se tornar o evento mais transmitido da história dos Jogos, de acordo com o Comitê Olímpico Internacional (COI). Mais da metade dos 1,3 bilhão de chineses ligaram a televisão para assistir a pelo menos uma parte da cerimônia de abertura, no dia 8 de agosto. (fonte: BBC Brasil).

A super-audiência dos jogos Olímpicos de Pequim em 2008 é sintomática. O fenômeno da massificação atingiu todas as esferas de atuação humana, potencializado pelos meios de comunicação. No caso dos esportes, a massificação geralmente é benquista, pela importância da prática para uma vida mais saudável, num mundo cada vez mais sedentário. Mas no tocante a cultura, a massificação gera uma dos debates mais acalorados, há tempos travados também nas mais espaças esferas de relações humanas.

Por isso, nada mais natural do que dedicar boa parte do tempo a estudar essa tal Cultura de Massa e, nesse intuito, vários autores deram e continuam dando sua contribuição. A Cultura, ao poder ser acessada e consumida por muito mais do que uma pequena elite devido as revoluções industriais (e dos meios de comunicação, por consegüinte), é criticada desde a segunda metade do século XX, por autores que percebem essa nova ‘sociedade de massa’ consumidora.

Bases Teóricas

As bases teóricas iniciais deste debate também datam desta época. Pensadores sociais como Comte e Spencer já começavam a dar importância a esse “grande segmento de indivíduos quase que indiferenciados, em detrimento de grupos sociais menores” – definição mais aberta de Massa.

Neste ponto é que começam a prevalecer as maiores desavenças. Afinal, a Cultura ser massificada é bom ou ruim? “Elementar, meu caro Watson”-isto também é cultura de massa (!).

Para a ideologia Liberal, nada mais natural e benéfico do que esta cultura de Massa. Sinal de que os ideais de “Liberté, igualité, fraternité”, ainda da Revolução Francesa, estavam finalmente sendo postos em prática. Nada mais democrático do que cultura para todos.

Agora, fosse você mais apegado a valores aristocráticos, aí estaria um grande problema. Nada mais ameaçador do que ver ‘sua’ Grande Cultura sendo consumida por uma plebe, democratizada por uma burguesia aculturada que só vai denegrir os bons valores culturais outrora tão bem cultivados, tirando até a aura das obras.

Neste ponto, a Escola de Frankfurt chega com o ‘pé na porta’. Capitaneados por filósofos como Adorno e Horkheimer, os teóricos desta instituição conseguiram marcar todo o estudo posterior sobre todos os assuntos ligados a este tema. Também avessos a essa “Civilização de Massa”, os críticos de Frankfurt não faziam oposição a esta por uma conservação do passado, nem eram contrários à democratização, mas sim à padronização e homogeinização alienante desta sociedade de massa, abastecida por uma “Indústria Cultural”. Cunharam termos e conceitos hoje indispensáveis, independente de aceitos ou não.

Debate Contemporâneo em cartaz

Mudam-se os atores, mas a peça continua a mesma. Talvez mais profunda. É isso que se pode perceber no debate atual sobre a Cultura de Massa. Os personagens estão lá: os ‘pobres’ Conservadores, vilipendiados, saudosos, representados por ‘atores’ como Ortega y Gasset, que continuam dividindo os indivíduos entre “massa” – aqueles consumidores de cultura pobre, que se contentam com o pouco que são e que consomem, mas que apesar disso querem o poder – e “minorias seletas” – não aqueles que se acham superiores ao resto, mas que só se satisfazem com a melhor cultura possível. E que deveriam tomar as decisões.

Ainda estão em cena os ‘vilões’ liberais, que apóiam a tomada da cultura pelos ‘bárbaros’ da massa. David Manning White ‘atua’ com destreza, ao criticar uma certa postura que alguns críticos tem de uma “visão excessivamente sombria da sociedade norte-americana e seus meios de comunicação de massa”, achando que esse preconceito contra os mass media é incabível para uma análise melhor elaborada sobre o tema, apontando que espetáculos imbecilizantes sempre existiram na história, mesmo sem estes media.

E não poderiam deixar de faltar os personagens mais a esquerda do palco, que roubam à cena e querem ‘revolucionar a história da peça’. ‘Atuando’ em grupo, destacou-se a turminha de vermelho dos Estados Unidos. Críticos como Clement Greenberg e Dwight Macdonald, atualizaram os estudos do velho Marx às novas tendências artísticas e às vanguardas culturais.

O hoje e os Jogos

O debate interminável, que, para o menos envolvido parece levar a todos os lugares e a lugar nenhum ao mesmo tempo, parece esquentar mais quanto mais profundo estar o grau de desenvolvimento desta cultura de massa. Por isso uma ocasião que une todos os povos como os Jogos Olímpicos representam tanto.

Tudo bem, a Internet continuou sendo censurada em Pequim, não havendo uma total interação entre todos os envolvidos nos dias de competição. Mas a audiência comprova a massificação de tudo ligado aos jogos, inclusive bens culturais. Será que isso foi benéfico? Será que não era melhor que a cultura chinesa ficasse ainda mais guardada a poucos, novamente cercada por uma muralha?

Se servir para análise, os chineses (antes ‘vermelhos’) conseguiram ficar em primeiro no quadro geral de medalhas, a frente dos Estados Unidos (um baluarte de democracia e valores liberais), Rússia (ex-vermelhos), Reino Unido e Alemanha (as potências antigas, conservadoras – forçando-se um pouco). Sinal dos tempos ou mera ilustração dos esportes? O debate continua.
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